Nas asas do medo...

Eram cinco horas da manhã e já contemplava o teto do meu quarto. Evitava olhar para o relógio, ele só me lembrava que à hora estava cada vez mais próxima. Levantei-me e como de costume fui prender minha cadela, Aurora, um pastor belga de 65 cm de puro amor canino. Adoro olhar para cara de boba que ela faz toda vez que me vê, costumo de dizer que meus amores vêm e vão, mas a Aurora vai me amar até o dia da morte dela.
Tomei um longo e quente banho, adoro a sensação da água pelando nas minhas costas, sempre me ajuda pensar na vida. É pouco responsável, eu sei, mas as reflexões e decisões mais importantes da minha vida são tomadas ali. Enrolei o quanto pode, meu medo era acompanhado pela ansiedade da realização de um desejo antigo, mas ainda sim ele imperava.
As horas passavam como minutos, os minutos como segundos. Eu disfarçava o máximo possível o que sentia, mas meu corpo me traia miseravelmente. Nunca minha mente ficou tão focada em um único assunto, nunca fiquei lívido como um fantasma e ansioso como uma criança, prestes a estrear um brinquedo novo. Chegamos no aeroporto na hora, quase rezei para perder a hora mas sentia uma estranha felicidade para chegar na hora. Uma luta cruel entre o medo e a vontade.
Entrei no corredor e pisei na cabine da aeronave 737 da GOL. Segundo o comandante, era a frota mais moderna.
Por Deus, que seja a mais segura também.
Sabia que meu medo era po
uco racional. Sabia das enormes diferenças entre acidentes nas rodovias e no espaço aéreo. Quando contava para todos sobre meu medo eles sempre chegavam com um comentário bem infeliz sobre acidentes.Pelo menos vou sem arrependimentos, caso algo aconteça... NÃO, NADA DISSO!
Sem pensamentos soturnos. Além disso, não vivi tudo que tinha para viver... Bem acho que não. Não fui a um show de rock, não beijei 100 garotas (não que queria isso algum dia), não criei meus filhos que nunca tive, não plantei tantas árvores quanto gostaria e a Aurora? Quem cuidaria dela?
A turbina ligou, o barulho era ensurdecedor, muito mais para mim que estava do lado da asa. Minha prima fazia pouco da minha cara. Não há nada pior que ter medo. Os outros caçoando do seu medo é ainda pior. Acabei sendo bruto com as minhas queridas companheiras, mas quem me culparia? Estava com muito medo...
Cem...
Duzentos...
Trezentos quilômetros por hora.
A força G comprimindo meu corpo quase sem alma no banco quando de repente, 22 toneladas de ferro levantaram vôo às 09h40min da manhã de Brasília.
Há 11 mil metros e 800 km por hora eu abri o sorriso mais infantil da minha vida. Estava voando pela primeira vez na minha vida e o melhor... Eu estava adorando.
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Terra de meu rei
Aportamos às 11h15min no aeroporto internacional de Salvador. Chovia muito e tivemos que esperar alguns minutos para aterrissar. Logo que sai no saguão senti o ar mudar. Mil metros fazem muita diferença para os pulmões de um Brasiliense (ok, ok, Goiano apadrinhado), mesmo sem dormir a horas estava acordado e cheio de energia.
Fizemos rápidas ligações para providenciarmos um transporte para o hotel, tentei ligar para minha namorada, mas meu celular não ajudou, desligou antes que discasse os números. Tenho que confessar que quando Aristóteles difundiu a matemática esqueceu de avisar meu antepassado, Víktor Alkântarus, que chegou atrasado na palestra sobre números primos, não
entendeu bulhufas e foi embora achando melhor dar pitacos na Ilíada de Homero. Prometi a mim mesmo que ligaria do hotel assim que chegasse.Um simpático motorista de táxi que nos levou para o hotel nos explicava as peculiaridades da Cidade de Todos os Santos. O trânsito era caótico e perigoso, tivemos dois ou três sustos antes de chegarmos ao nosso hotel. Percebi que Salvador era como qualquer cidade grande, mas ainda sim sorria feito besta a cada casinha colorida, a cada peculiaridade de suas ruas sem calçadas e suas ladeiras impossíveis.
O Hotel pertencia ao exército, cortesia de uma amiga querida de nossa família que tinha seus contatos. Velhos canhões de artilharia enfeitavam o local, uma igreja em estilo colonial sobressaía no horizonte. Chegamos ao hotel e agradecemos a Deus por ter uma amiga tão querida, o quarto era muito mais valoroso que o preço sugeria uma cortesia para os casernas do local que agora era só nossa.
Passeamos pela orla em busca de um bom restaurante para matar nossa fome do meio-dia. Mesmo com sua variedade culinária estonteante, comemos em um pitdog. O sanduíche era rançoso, mas com a fome que estávamos era um manjar dos Deuses. Caminhamos pelo bairro da Amaralina apreciando sua pobre estrutura, buscávamos um supermercado. O lixo pela rua e a poluição dos carros quase me fez perder o apreço por onde estava, vi o crime capital de um esgoto diretamente jogado no mar e me senti muito mal por ser um ser humano, cheio de falhas e de semelhantes.
Achamos o bendito mercado e voltamos para o hotel. Eu tentei ligar para minha namorada, mas não conseguia. Mandei uma mensagem, não sei se chegou. Preocupei-me em achar que ela se preocuparia comigo. Pela primeira vez na minha vida amorosa eu era tão importante para alguém. Pensei nos relacionamentos que tive e no que aprendi com eles, gosto do meu novo amor atencioso, nunca tive um amor assim.
Descansei minutos vendo um filme na TV e depois fui andar pelo Hotel, tentei entrar no mar, mas este estava bravio, arredio. Se Iemanjá não queria (o guardinha também não deixou) só fitei o mar de leve, sorrindo para sua raiva. Estava feliz, minha vida finalmente estava entrando nos prumos de novo, era a Terra de Todos os Santos agindo sobre minh’alma. Jorge Amado nunca foi tão simples pra mim. Amar essa cidade é tão fácil quanto respirar, e hoje vou dormir aspirando à maresia, ouvindo o ribombar das ondas. Das brancas ondas da baía de todos os santos.

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